#21 – Laila E A Primavera

laila

É dito que a primavera vem vindo e Laila sai correndo pela grama.
Pequena moça de cabelos cacheados, loiros, até a cintura, Laila sorri para o vento fresco com seu vestido branco, tão branco quanto lírios que tanto idolatra!
É dito que a primavera vem vindo e Laila acredita. Não tem noção de muita coisa, mas sabe quando o vento toca a sua pele de forma diferente, quando o ar gélido já não lhe oprime os pulmões e quando a esperança torna a brilhar em seus olhos castanhos.
“É primavera!” – grita a menina com a voz jovem de seus dezoito anos de idade. “É primavera, olhem! A felicidade está voltando!”
Laila é seguida por suas cuidadoras, por moças dez anos mais velhas que ela e que sempre estão ao seu lado. Até hoje não sabe, não entende porque estão ali, porque cismam em lhe seguir, mas não importa, não importa nem um pouco! “É primavera!”, segue berrando, enquanto rodopia com as borboletas multicoloridas ao seu redor.
É dito que a primavera vem vindo e que ele está voltando! Laila senta-se sobre a grama, descansa de seus rodopios e olha o delicado relógio em seu pulso. Falta muito para o meio dia e ela nem sabe ao certo porque está esperando o meio dia! Ele não disse hora, não precisou muita coisa, só fez promessas, disse que pediria sua mão ao seu pai, como toda dama merecia, e Laila acreditava que ali ele estaria, depois do meio dia. É verdade, ele viria, com seu terno marrom, o cabelo engomado, aquele porte de lorde inglês, coluna ereta e voz grave. Laila também nuca havia visto um lorde inglês, raramente saía de casa depois de seus quinze anos completos, mas imaginava que ele parecesse um.
É dito que a primavera vem vindo e Laila gargalha de felicidade junto ao canto dos pássaros que vieram cantar com a menina uma canção de alegria e amor! Primavera significa muitas coisas, significa botões dando flor, o fim de um inverno gelado e sombrio, o renascimento do sol por detrás da colina e o regresso dele, o pedido de casamento e seu final feliz! É primavera, finalmente primavera, e como Laila amava a estação dos frutos, a estação das flores!
É dito que a primavera vem vindo e ali estava ele, finalmente! “Olhem, olhem, ele voltou!” – berrava a menina aos saltos, apontando para detrás dos portões de ferro que protegiam o terreno da enorme propriedade de seu pai. “Ali está, ali vem ele, meu amor, meu amor voltou!”. Não era ainda meio dia, pensou Laila, nem sabia que horas eram, não tinha noção de muita coisa, nunca teve e isso nunca importou. Só importava seu amado e seu amor; o resto do mundo ao resto deveria ficar.
A felicidade fez flores brotarem em seu peito, flores brancas, lírios, os mais belos lírios que os olhos de Laila haviam visto!
É dito que a primavera vem vindo e ela veio, ela chegou! “Vamos, abram os portões! Abram os portões, ele chegou! Ele chegou!”
A menina continuava a rir com os pássaros, a rodopiar com as borboletas e a colher lírios de seu peito. Ele lhe sorria por detrás do portão e acenava, ele estava ali e era chegado o momento! Ele pediria a sua mão e Laila, pequena Laila teria seu tão esperado final feliz!

É dito que a primavera vem vindo mas ela não chega, ela nunca chega para o mundo fora de Laila.
Suas cuidadoras se entreolham, tristes, esperando que sua euforia acabe, que um dia tudo isso acabe, em algum momento dos anos, em algum espaço do tempo, como que por um milagre.
Suas cuidadoras esperam, como sempre esperam, os lírios destroçados caírem do peito de Laila para então se levantarem, colherem suas pétalas e regressar com a menina à casa, num ciclo que não termina e não tem previsão de terminar.
Laila sorri, canta e rodopia para o vento, apenas para o vento, que passa e passa invisível do outro lado do portão.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
Cuera

Comments

comments