15 – Precisamos Falar Sobre Muitas Coisas, Mas Será Que Estamos Nos Ouvindo?

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É comum vermos o termo “precisamos falar sobre” pelas redes sociais quando alguém faz um texto querendo explorar um determinado assunto polêmico para elucidar o público quanto à sua importância. Feminismo, homossexualismo, racismo, xenofobia e intolerância religiosa estão entre os temas mais discutidos e, como sempre, são temas que causam bastante discussão e seria muito saudável ter uma discussão diária sobre todas essas coisas se ao menos conseguíssemos, de verdade, falar sobre isso. O problema é que o assunto quase nunca é só falado. Ele é brigado, é berrado, se torna agressão e até uma Terceira Guerra Mundial, principalmente no Facebook. Então, do que estamos mesmo falando?
São tempos difíceis, tensos, não só para o Brasil, mas também para o mundo. As pessoas parecem estar sempre à flor da pele e prontas para fazer o Michael Douglas no aclamado “Um Dia De Fúria”. É muito mais fácil agredir alguém e perguntar depois do que praticarmos a paciência e “corrigir” algum pensamento equivocado com explicações e não xingamentos.
A humanidade está passando por uma transformação importantíssima, as sociedades estão evoluindo ao reparar os próprios erros e tentar corrigi-los através do progresso. Não é mais aceitável diminuir alguém por causa da cor da pele, pelo sexo, pela religião, pelo lugar onde nasceu etc. e cada vez mais as pessoas estão tomando consciência disso (ainda tem muita gente sem noção e preconceituosa, mas eu prefiro acreditar que a maioria está tentando melhorar e fazer deste lugar um mundo melhor). Mas nenhuma transformação ocorre de um dia para o outro. Mudar a cabeça e fazer seres humanos entenderem que precisam se respeitar acima de tudo é algo muito complicado, leva tempo e requer paciência. E estamos todos suscetíveis ao erro, sejam estes pequenos ou grandes.
Textos bem intencionados que procuram divulgar a ideia de igualdade viram discussões agressivas porque o autor empregou uma palavra ou usou um termo que não se deve usar mais. Às vezes a culpa não é nem da palavra mal empregada e sim um erro de interpretação de um leitor, que leva outros leitores preguiçosos a interpretarem com a cabeça deste primeiro leitor, e todo mundo sai partindo para uma batalha que ninguém sabe de onde saiu em primeiro lugar. No fim, todos saem agredidos e feridos e o protagonista da história, que era a causa a ser defendida, fica em segundo, terceiro ou em nenhum plano.
Precisamos falar sobre muitas coisas, todos os dias para evoluirmos, mas não estamos nos entendendo. E o mais curioso é que não estou falando de pessoas com ideias opostas, o clássico coxinhas x petralhas. Estou me referindo a pessoas que defendem a mesma causa e ainda assim conseguem arranjar um motivo para se odiarem e organizarem um motim na internet uma contra a outra. Qual é o sentido disso tudo?
É preciso entender que errar faz parte da transformação, do esclarecimento. Se aquele autor fez um texto com o intuito de falar sobre a importância de ver um ser humano além da raça e empregou aquela palavrinha errada que é uma reprodução que ele ouviu dos avós, cabe a você chegar e dizer: “Fulano, essa palavra está mal empregada por isso, isso e isso, não faz mais parte do contexto hoje em dia. Abraços!” e não sair escrevendo em caps lock que o cara é um racista enrustido. Se uma amiga sua que luta pela causa feminista acabou reproduzindo uma frase machista sem se dar conta, cabe a você explicar porque ela não deve mais usar aquele termo e porque esta frase não cabe dentro da luta feminista. E não chamá-la de machista (isso é o que mais vejo em discussões feministas!) ou falsa porque ela simplesmente se equivocou.
A verdade é que ainda reproduzimos muito do que nos foi dito ao longo da vida por uma sociedade que oprimia as minorias desde o nascimento do primeiro ser humano. Não pensamos em cada palavra que sai de nossa boca (mas devemos!) e às vezes não nos damos conta que aquilo é errado. Dê uma chance, pelo menos uma chance, de uma pessoa se equivocar antes de xingá-la de tudo quanto é nome e criar um mal estar em uma rede social ou até mesmo pessoalmente que pode deixar cicatrizes para a vida inteira. Devemos acabar com este mundo de guerras, dentro e fora das redes sociais, e não contribuir para a criação de mais uma.
Com a liberdade de expressão que a internet deu para as pessoas da nossa geração, queremos e precisamos falar sobre muitas coisas. Entretanto, é importantíssimo e urgente refletir o quanto, de verdade, estamos ouvindo uns aos outros.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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