Ideia De Nobel.

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“Foi um sonho bem real”, pensou Joaquim Ferreira. Foi muito real, tão real que ainda podia senti-lo em sua pele, mesmo horas depois de acordado. Sonhou que estava lá em Estocolmo, recebendo o Nobel de Literatura, sendo aclamado pelos maiores pensadores e intelectuais do mundo.
Joaquim não tinha nenhum livro publicado, aliás, Joaquim não tinha nenhum livro escrito. Todo o seu acervo literário era resumido em um caderno de poemas que levava consigo desde os quinze anos de idade e ainda não completara. Rabiscos, frases e pensamentos que algum dia, quem sabe, se transformariam em livro.
Mas ele sonhou com o Nobel, não, ele viveu esse momento em alguma realidade paralela onde era possível ver o futuro e teve a certeza de que esse sonho se tornaria matéria em algum ponto de seu caminho. Joaquim foi para o seu trabalho pensando em como aquela vida medíocre que leva há anos iria acabar assim que publicasse seu primeiro livro, o que com certeza lhe abriria portas e lhe permitira ter uma carreira literária de respeito, que o levaria até o seu final feliz, o final feliz de seu sonho.
Contudo, havia aquele pequeno problema chamado ideia. Joaquim tinha muitas coisas na cabeça, mas não tinha uma história boa. Quer dizer, até tinha algumas histórias boas, um “garoto encontra garota” com final surpreendente, uma cena de assassinato que poderia muito bem virar um romance policial, uma história sobre doença e superação, essas coisas, essas coisas até legais, mas não dignas de um Nobel. Teria de pensar mais, muito mais para fazer um ótimo livro de estreia, um que o colocasse como principal nome do cenário intelectual brasileiro, isso só para começar.
Enquanto a musa inspiradora não vinha bater à sua porta, Joaquim contou para todos os amigos e familiares sobre seu sonho, sobre como tudo iria ser realidade no futuro e então poderia ser rico, famoso e sustentar todo mundo. É claro que Joaquim percebeu os olhares trocados e teve de ignorar alguns deboches e ironias sobre o que havia acabado de contar, mas a certeza de que um dia iria provar a todos que estava certo o fez engolir o orgulho e seguir em frente.
Os anos se passaram e Joaquim ainda esperava pela ideia. Gastou todo um caderno só para anotar as sinopses de suas possíveis ideias, mas não conseguia desenvolver nada, era tudo fraco, já inventado, o cúmulo do clichê, não valiam a pena. Não eram uma ideia de Nobel ainda, mas uma hora tinha que aparecer, uma hora iria chegar. E enquanto não chegava, Joaquim seguia sua vida em seu trabalho burocrático, infeliz e triste, e fazendo-se surdo às ironias dos amigos quanto ao seu maior e ainda não realizado sonho.
Chegou à meia idade e com um total de 5 cadernos de ideias completas. Nenhuma delas digna de um Nobel. Nenhuma delas valia ser escrita. Mas um dia iria chegar, um dia iria acontecer, já estava com idade avançada, era verdade, mas seria o primeiro escritor a ganhar o Nobel com apenas um par de livros escritos. Livros ainda não tinha nenhum, mas esperanças, ah! Esperanças tinha de sobra! Só ele sabia o que tinha visto, o que tinha sentido, era um aviso dos anjos, ele sabia, aconteceria em algum lugar do futuro.
Joaquim Ferreira morreu aos 72 anos, cheio de cadernos e nenhum livro escrito.
Em seu enterro, um de seus amigos comentou: “Esse aí, uma figura! Preocupou-se tanto com esse tal de Nobel que esqueceu-se de apenas escrever um bom livro.”

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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