#19 – Um Dia Normal

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Era para ser um dia especial. Na vida da maioria das pessoas este era um dia especial. Mas Victor Albuquerque não era como a maioria das pessoas. Ele não se importava, ou apenas dizia que não se importava, com essa data irrelevante.
Agiu como se fosse um dia como outro qualquer. Acordou, comeu, se vestiu, enfrentou o terrível trânsito da cidade do Rio de Janeiro, chegou ao trabalho, cumprimentou seus colegas e foi dar mais uma aula de Literatura Portuguesa, como fazia já há 15 anos. A aula foi interessante, discutiram Camões, combinaram de organizar um passeio à Biblioteca Nacional, falaram sobre poesia e sua importância para o desenvolvimento de novas idéias e Victor também observou que duas alunas suas tinham um grande talento para críticas literárias. Nada o deixava mais feliz do que ver jovens realmente interessados e com grande aptidão para o mundo da Literatura.
Na sala dos professores, tomou o seu café, comentou com a professora de Didática sobre como estava cada vez mais difícil morar no Rio de Janeiro com tanta desordem e engarrafamentos diários, não valia a pena, ele dizia exaltado, ter tanta beleza para ver e não poder vê-la por estar 4 horas por dia dentro de um carro. A professora concordava sem muita empolgação enquanto corrigia suas provas. Victor ficou esperando que ela falasse, que olhasse em seus olhos e se lembrasse de algo que ele nem tinha certeza se ela sabia, mas não houve qualquer reação. Victor deu de ombros, aquilo não tinha importância, era um dia normal, um dia como outro qualquer. Acomodou-se em sua cadeira, comeu um biscoito, deu uma olhada na hora e ligou o celular para ver quais seriam os lançamentos literários do mês em Portugal.  Nada novo, tudo como acontecia todos os dias.
As aulas acabaram às 18 horas. Victor entrou no carro, checou mais uma vez o celular – nenhuma notificação, nenhuma caixa postal – pronto para enfrentar mais duas horas de trânsito e calor insuportáveis.
Chegou em casa como se fosse um dia como outro qualquer. Nenhuma surpresa, ninguém o esperava, nenhuma mensagem na secretária eletrônica. Colocou sua comida no microondas, pegou a comida do gato – que o esperava o jantar com os olhos brilhantes e ansiosos – ligou a TV e sentou-se no sofá, mas quem ganhou sua atenção foi o teto, enquanto perdia-se em pensamentos.
Como tudo havia acabado desse jeito? Como ele chegou até esse tipo de vida, sozinho, num apartamento de um quarto e com a companhia apenas do gato que comia com voracidade a pasta fedorenta que havia colocado para ele? Victor tinha alguns amigos mais distantes, primos, tios, mas todos eram muito ocupados, alguns nem moravam no país e ele até entendia a falta de lembrança. Namoradas, é verdade, teve algumas, mas quem sabe onde ou com quem foram parar, nem deviam ter mais seu telefone mesmo. O porteiro não sabia, o faxineiro também não, tampouco o zelador, ele nunca havia falado nada, também, para que? Era uma data sem relevância, uma data qualquer, todo mundo tem essa data no calendário, não tinha sentido sair espalhando por aí assim, do nada. De toda forma, ele pensava, como tudo foi acabar assim?
Victor não estava morto e tampouco tinha qualquer doença terminal, porém não conseguia olhar sua vida sem associá-la ao verbo “acabar” em cada linha de pensamento. Talvez tenha sido culpa dele, talvez tenha sido apenas azar, talvez, talvez, quem sabe, não é? Afinal, nada disso importava, no fim das contas, esse era um dia como outro qualquer, não era para se sentir assim. Mas se sentia.
Victor tomou um susto quando o gato veio enroscar-se em suas pernas. Gabo, como era chamado, era um gato bem blasè e lhe dava tanta atenção quanto os móveis inertes e sem voz de seu apartamento. Contudo, agora enroscava-se em suas pernas clamando por carinho, virou-se de barriga para cima e ronronou quando Victor lhe fez cócegas. Para completar o momento inusitado, Gabo ainda lambeu-lhe os dedos por alguns minutos, algo que o gato só fazia quando Victor estava com algum resto de biscoito nos dedos.
Com lágrimas nos olhos e rindo como uma criança que acabara de ganhar o brinquedo desejado, Victor agradeceu ao gato por ter lembrado de seu aniversário.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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