#18 – Playground

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Na minha infância, quando minha mãe me levava ao parquinho do bairro, o primeiro brinquedo que eu atacava era o roda-roda. A maioria das outras crianças ia direto ao balanço ou brigavam pelo escorrega. Eu sempre escolhi diferente. Talvez seja a partir daí que minha diferença em relação às outras pessoas tenha se manifestado pela primeira vez.
Sempre gostei de me divertir naquele grande brinquedo. Para o meu pequeno e magro corpo de criança o roda-roda parecia o mundo! Sozinha, corria o mais rápido que meus pés podiam para pegar impulso e então sentava sobre o ferro colorido, fechava os olhos e abria os braços, para sentir-me pássaro. Para sentir que eu voava para algum lugar distante, onde as coisas faziam sentido e meu coração poderia encontrar outro coração amigo.
Costumo perceber que quando as pessoas sentem-se tristes ou precisam de um tempo, saem pelas ruas buscando algum lugar ideal para ajeitar o fluxo dos pensamentos. Felizmente, eu já conhecia esse lugar de reflexão e momento íntimo. Não precisava que algo acontecesse para que buscasse esse lugar. Era só a melancolia chegar sem pedir permissão e eu me via obrigada a ir atrás do meu cantinho de cura. Morar perto de um parque ajudava bastante.
Em um desses momentos, saí pela rua mesmo observando uma tempestade se aproximar ao norte. As pessoas já começavam a procurar algum abrigo quando os primeiros raios e trovões ecoaram pelos céus. Senti um pouco de medo dos trovões, mas queria o parque só para mim. Essa era a oportunidade perfeita.
Sentei sobre o ferro pintado de vermelho do roda-roda e comecei a movimentar os meus pés a toda velocidade para pegar o impulso. Com o vento forte batendo em meu rosto, perguntei-me se dessa vez conseguiria finalmente voar para um lugar bem longe da minha realidade.
Tirei os pés do chão e abri os braços, exatamente como fazia quando criança. Dessa vez não fechei meus olhos. Mantive-os bem abertos, esperando que alguém aparecesse. Mesmo com toda aquela velocidade e figuras desconexas à minha frente, eu ainda esperava, ainda ansiava encontrar no olhar de alguém um conforto para a minha alma. Talvez toda a minha vida eu tenha procurado em espaços vazios, em multidões barulhentas ou em qualquer outro lugar uma única pessoa. Alguém que eu ainda não conhecia, mas que me amaria por quem eu realmente sou de corpo e de mente, sempre que eu precisasse fingir ou disfarçar algum pensamento. Muito procurei e jamais encontrei. E de tanto catar algo que parecia não existir para mim, acabei me deixando cair em um mar de desesperança e frustração. Sozinha ou com mil pessoas à volta, eu buscava rostos, caçava corações e examinava almas através de um único olhar. Mas o resultado sempre era o nada. Acho que meu problema é justamente esse: ir atrás do desconhecido sem deixar qualquer oportunidade para que esse desconhecido me encontre primeiro.
Já vivi e vi coisas que me fizeram desacreditar completamente, mas, contra toda a lógica, até mesmo quando não esperava mais nada eu ainda esperava tudo. E se essa história de “não busque o amor, deixe que ele busque você” for verdade, então eu morrerei em completa solidão, pois creio que em nenhum momento da minha vida eu serei capaz de desacreditar que existe pelo menos uma pessoinha para mim dentre 7 bilhões.
Imersa em meu próprio universo, pensei também sobre minha infância. Tentei achar o momento exato em que toda a brincadeira de criança havia acabado e me vi sendo adulta antes de um tempo aceitável. Mas não consegui. Tudo havia acontecido tão de repente, de uma hora pra outra, que nem sabia precisar em que ponto do caminho tudo havia ficado de cabeça para baixo.
É imprescindível ensinar às crianças a permanecerem crianças. Porque nunca se sabe quando essa infância será roubada delas. A liberdade geralmente se encontra apenas nessa fase da vida, mesmo com os limites impostos pelos pais. Quando pequenos, sempre pensamos que ao chegarmos adulta seremos mais felizes, faremos tudo o que quisermos, não existirão mais esses segredos de família que sussurram por detrás da porta de nossos quartos e poderemos andar por qualquer canto sem vigia. Entretanto, ao crescer, descobrimos que as vozes dos segredos são altas demais para nossos ouvidos, que a liberdade nada mais é do que um ponto de muitos pontos de vista e que os monstros que vimos nos desenhos animados, na verdade, são as pessoas.
Quando me olham, dizem que ainda tenho muito o que viver e conhecer, que não passei por muitas coisas de adultos e que minha vida está apenas começando. Mas eles estão enganados. Costuma-se julgar os jovens pela idade, mas a verdadeira experiência de vida está no espírito, não nos números mostrados em uma carteira de identidade. Ninguém sabe os mil anos sentidos em minha pele ou as milhões de horas que passaram lentamente dentro de mim. Ninguém sabe nada de nada. E, ainda assim, continuam falando e falando.
O roda-roda foi parando aos poucos e meus olhos passaram a observar os detalhes do parque onde me encontrava. Olhando o vazio tocar cada brinquedo, lembrei-me das pessoas que um dia preencheram alguns espaços dentro de mim. Amigos e familiares por quem eu realmente tinha um imenso afeto, mas que nunca ouviram uma declaração sensível de meus lábios. É curioso pensar que na hora de dirigir uma ofensa a alguém as palavras enchem nossa boca de forma irrefreável, mas quando é vez de dedicar uma palavra de amor à outra pessoa, não encontramos as letras de nosso próprio idioma e assumimos que, de alguma forma mágica, a outra pessoa saiba o tamanho do amor que sentimos por ela. O pior de tudo é que elas geralmente vão embora, sem nos dar tempo de gritar tudo o que sentimos e o quanto somos agradecidos por elas terem feito parte de nossa vida.
Nós deveríamos ter vergonha de odiar alguém. Não de amar.
O brinquedo parou de girar antes do esperado. Tornando à realidade, percebi um pé sobre o ferro vermelho e um par de olhos castanhos olhando para mim com certa curiosidade.
Pensei em perguntar quem era ou o que fazia ali com uma grande tempestade chegando, mas ele foi mais rápido e perguntou:

– Posso me juntar a você? Sei que os outros brinquedos estão vazios, mas o roda-roda sempre foi o meu favorito.
– Uma tempestade se aproxima… – respondi o óbvio, ainda um pouco confusa por aquele olhar que havia me encontrado em um monte de espaços vazios.
– Não me importa. – ele subiu no brinquedo e ficou de frente para mim, sorrindo. – Tempestades lavam a alma. E eu estou precisando de uma bela ducha!
– Somos dois, acredite.

Os primeiros pingos grossos de chuva começaram a cair. O rapaz começou a movimentar os pés para pegar impulso, sem tirar os olhos dos meus. Pela primeira vez não consegui decifrar o que havia por detrás daquele olhar. O que quer que fosse, eu apenas me sentia bem. Muito bem.
Se a liberdade é mesmo um ponto entre muitos pontos de vista, no momento a liberdade era sentir a água da chuva molhar o meu corpo e jogar no chão toda a energia negativa que me cobria. Era sentir-me estranhamente livre mesmo na presença de outra pessoa.
Em meu brinquedo favorito e tendo como companhia um outro amante da chuva, o barulho dos trovões não mais me assustavam.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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