#13 – W.O

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Marcela e Rodrigo foram os escolhidos para disputar a final de um concurso literário promovido pela prefeitura de sua cidade.
Depois de várias etapas, pelas quais passaram com maestria, deixando os jurados embasbacados com tamanho talento para a escrita, era a hora de ver quem seria o melhor escritor jovem da cidade.
O desafio seria escrever um curto romance de até 120 páginas, tema livre. Teriam duas semanas para realizar o feito e entregar seus trabalhos. A partir do primeiro dia da grande final, Marcela e Rodrigo prepararam todo um cronograma para dar conta do desafio.
Rodrigo resolveu faltar as aulas na faculdade para focar-se em seu livro e sair vencedor do concurso. Durante as duas semanas, não colocou o pé fora de casa, não falou com amigos, não viu sequer a Juventus jogar a final da Champions League na televisão. Quando fazia uma pausa para descansar, Rodrigo ia comer o delicioso jantar preparado por sua mãe e em seguida fazia um roteiro das próximas cenas do romance, ajeitando todos os personagens que iriam se cruzar, as cenas, as frases de efeito que choviam em sua cabeça e os mínimos detalhes que fariam com que o livro não tivesse qualquer falha. No último dia do desafio, assim que colocou o ponto final em sua história, Rodrigo jogou-se na cama e dormiu até a hora de entregar o trabalho finalizado.
Marcela também preparou-se para a maratona. Tinha a ideia pronta na cabeça, inicio, meio e fim. A menina fora abençoada por alguém lá em cima com um talento para contar histórias. Era só imaginar um cenário, misturar a algo que realmente quisesse dizer e pronto! Todo um universo de personagens, enredo e estrutura fixavam-se em sua mente, dispensando a necessidade de anotar qualquer coisa no papel. Desde o primeiro dia, Marcela já sabia o que iria escrever e sabia que seria bom.
Porém, no segundo dia, sua mãe caiu doente. Dengue, foi o que os médicos disseram. O corre-corre fez com que Marcela adiasse seus planos de escrita. Afinal, família vem sempre em primeiro lugar.
Seu pai não pôde fazer muita coisa, pois trabalhava de 6h às 17h e tinha um patrão que não aceitava quaisquer desculpas. Chegava em casa cansado, quase morto, louco para comer o jantar que sua filha mais velha havia preparado.
No terceiro dia, Marcela teve de levar seus dois irmãos à escola. Na volta, precisou limpar a casa, preparar o almoço, checar a saúde de sua mãe, limpar os vidros, lustrar os móveis… Sentou-se para escrever, mas não conseguiu ir além da terceira página; era hora de buscar os irmãos e não podia atrasar um minuto sequer.
Marcela passou a noite toda em claro para que no quarto dia tivesse apenas 7 páginas prontas. Tirou um cochilo de duas horas e logo já estava de pé para levar seus irmãos à escola outra vez. Neste dia, seu pai chegou mais cedo do trabalho. “Faltou água”, ele disse, largando a camisa sobre o sofá e jogando as meias no chão. “Liberaram todo mundo, pois sem água ninguém pode trabalhar”. Marcela pediu para que seu pai comesse um sanduíche para o jantar, pois precisava adiantar o seu livro para a final do concurso. “Não posso comer sanduíche na janta!” replicou, ligando a tv para ver o jornal da tarde. “Amanhã vão fazer a gente trabalhar em dobro por causa da saída precoce de hoje, preciso estar bem alimentado! Não custa nada você fazer um ovinho e esquentar o feijão!”.
Marcela nem ligou seu computador para fazer um ovinho e esquentar o feijão para o seu pai. Mais uma vez, naquela noite, dormiu um par de horas para conseguir completar apenas mais  cinco páginas de sua história.
E assim os dias seguiram. Sua mãe apresentava uma certa melhora, mas nada ainda que a deixasse levantar da cama para fazer qualquer coisa. Repouso e alimentação eram essenciais para alguém se recuperar de uma dengue. No décimo dia, Marcela já via sua chance de ganhar o concurso e se tornar uma escritora cada vez mais longe. A crise de choro que teve durante a madrugada impediu que escrevesse uma linha sequer.
Havia chegado o dia para a entrega dos trabalhos. Marcela e Rodrigo chegaram ao mesmo tempo e se cumprimentaram na escadaria da prefeitura da cidade. Rodrigo tinha um sorriso de satisfação nos lábios. Marcela tinha os olhos vermelhos e o rosto inchado.
Rodrigo foi o primeiro a entregar o trabalho para a bancada do júri. 120 páginas corretas, devidamente encadernadas. Os jurados observaram o título e as primeiras páginas e sussurraram sobre o livro que tinha tudo para ser interessante.
Marcela olhou timidamente para a bancada e hesitou antes de entregar seu trabalho. “São só 90 páginas”, explicou a menina, sendo observada pelos olhares julgadores. “Foi só o que deu pra fazer, mas a história está completa! Minha mãe teve dengue e…”
Foi interrompida. O líder da bancada de jurados não deixou que se explicasse. Afinal, regras eram regras. Se o concurso havia dito que o romance precisava ter 120 páginas, então assim deveria ser. Pediu que a menina levasse suas folhas de volta para a casa, pois não poderia ser julgada.
Rodrigo foi dado como o grande vencedor mesmo sem ter tido o seu trabalho avaliado. Fechou um contrato decente com uma importante editora, teve seu nome estampado nos jornais da cidade como o jovem mais promissor da literatura no país e mesmo antes do lançamento do livro já havia ganhado uma legião de fãs e admiradores.
Enquanto Marcela… Ah, Marcela!
Marcela regressou à casa para fazer um ovinho e esquentar o feijão.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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