Detalhes.

nico

Passei a amá-lo nos detalhes.
Como quando sorri e provoca pequenas ruguinhas debaixo de seus olhos. Ou quando franze o nariz ao sorrir, tentando sair de um clima de desconforto.
Passei a amá-lo quando notei as sardas quase imperceptíveis em uma linha que começa um pouco abaixo do olho direito, passa sutilmente pelo nariz, para terminar um pouco abaixo do olho esquerdo. Levei algum tempo para notar. São tão fraquinhas que só é possível percebê-las com o sol ou com alguma luz muito forte batendo diretamente em seu rosto. É preciso prestar bastante atenção para vê-las. E ultimamente não tenho feito outra coisa.
Seus olhos não chamam atenção por serem azuis, verdes ou qualquer outra cor que apenas uma mínima porcentagem da população mundial possua. Seus olhos são castanhos, simples, como os da maioria. Mas têm o poder de te arrastar para dentro deles sem que você tenha qualquer direito a uma escolha. Ele fala e você mal presta atenção, desejando ver o seu próprio reflexo morando para sempre naquele mar castanho. E por observá-los tão atentamente, posso jurar que eles mudam de cor quando ele está animado em relação a alguma coisa. Ficam mais claros, como se uma luz invisível acendesse detrás de sua íris. Por esse motivo, tento fazê-lo sorrir sempre que posso. Porque nada é mais inebriante do que ver a cor dos olhos do homem amado mudarem por sua causa.
E sua voz… Ah! Sua voz é como Nocturno Opus N°2 de Chopin deslizando por meus ouvidos. É suave. Me passa uma sensação de tranquilidade tão forte que apenas desejo fechar os olhos e sentir minha alma ser carregada por aquele som. Porém não é sempre assim. Quando ele está com raiva e transtornado, as palavras arranham em sua garganta. É como o rosnado de um cachorro que faz de tudo para defender o seu território. É áspero e amedrontador.
O cabelo liso – da exata cor e tonalidade de seus olhos – cai sobre a testa numa modesta franja, que não passa um milímetro sequer de suas sobrancelhas grossas. Se ele soubesse o quanto me enlouquece ver seus dedos bagunçando aqueles fios castanhos quando está cansado, com certeza não o faria com tanta frequência.
Ele não se envergonha muito facilmente, mas, quando acontece, sinto meu coração encolher quando o vejo afundar ambas as mãos no bolso e encarar o chão. Depois do momento constrangedor, ele olha cautelosamente para cima e observa se já está livre daquela sensação desagradável e corrosiva. Ao sentir-se seguro outra vez, seus lábios desenham um sorriso torto. Suas mãos colocam graciosamente os óculos escuros sobre o rosto e torna a andar com a mesma confiança e beleza de sempre.
Ele é como um vício do qual você não consegue largar. Abre um buraco em mim quando se afasta ou se penso que posso perdê-lo a qualquer instante. Ele é pior do que chocolate, heroína ou café. Porque não existe nenhum exame ou pesquisa que comprove o quanto uma única dose de seu beijo pode levá-la à dependência e, consequentemente, ao delírio.
Passei a amá-lo nos detalhes e o detalhe é que ele não faz ideia do que provoca em mim.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
Cuera

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responses to “Detalhes.” 4

  1. Os detalhes são essenciais! Como eu amo observaaaaar. Hahaha. E por isso que amo seus textos… Tão cheios de detalhes. Parabéns, linda!

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