10 – A Correnteza.

tides

Sempre vivi à mercê da correnteza. Não aquela do mar, que com sua força e revolta vai arrastando tudo o que pelo caminho encontra. Mas a correnteza da vida, a que está sempre querendo me levar a algum lugar.
Não sei dizer quando a senti pela primeira vez. A memória do meu cérebro é fraca, só lembro de coisas inúteis, que geralmente envolve Hollywood ou erros pretéritos de pessoas amadas. O fato é que sei reconhecê-la quando se faz presente. Alguns chamam essa sensação de intuição. Mas eu, como sou chata e gosto sempre de fugir ao normal ou ao que está na ‘moda’, gosto de dar nomes a sentimentos que são constantes na minha vida. Por isso, chamo esse sentimento de correnteza: pois é uma força invisível que me arrasta em direção a algum lugar. Um lugar do qual eu preciso estar.
A correnteza se fez presente quando decidi criar a primeira fanfic no Orkut, dando asas à minha sempre prolífica imaginação, mesmo quando me perguntava mil vezes se as pessoas iam gostar ou se aquela história ia ficar abandonada para sempre em uma rede social que logo mais seria esquecida. A correnteza se fez presente quando eu aceitei a sugestão de meu pai para colocar o artesanato de minha avó à venda em uma feirinha, mesmo sendo uma pessoa completamente tímida e, na época, saindo de um longo e difícil período na vida, além de ser incapaz de manter uma conversa com alguém que eu não conheço. Se fez presente quando comecei a trabalhar no meu primeiro emprego fixo. E também estava lá quando, quase 2 anos depois, decidi abandoná-lo porque simplesmente sabia que tinha chegado a hora de ir. Mas acima dessas e de todas as outras coisas, de todas as situações e obstáculos da vida, a correnteza praticamente afogou-me quando, ao escrever para uma das minhas mil fanfics no Orkut, tive um momento de epifania e decidi, naquele momento e naquela hora, que eu não só queria, como também podia ser escritora; que estava na hora de lutar para isso. E, consequentemente, lutar contra uma família que presa um ‘emprego fixo’ como a base para a felicidade de um ser humano.
Eu gosto quando ela aparece. Quando ela se faz presente e sorri para mim, sei que uma mudança está chegando. E que é das grandes. Assim como minha imaginação, a minha correnteza aposta alto, como um all-in num jogo de pôquer. Eu sei que ela chegou quando eu sinto que devo fazer algo, assim, do nada, em uma de muitas minhas epifanias, mesmo quando não quero ou morro de medo de fazê-lo. E como um ser humano ignorante e teimoso, eu sempre tento nadar contra, dar braçadas cada vez mais fortes para escapar dela e voltar à segurança de minha praia morna e acolhedora. Mas no fim, acabo desistindo, pois é inútil nadar contra ela. É perda de tempo, de esforço e uma burrice. Então, apenas fecho os olhos, pego todo o fôlego de coragem que consigo e deixo que ela me leve para o lugar onde preciso estar. E sempre, sempre dá certo. Quando ela vai embora e eu consigo ver tudo de forma mais clara, percebo que me tornei um ser humano melhor, mais corajoso e sábio. E que devo continuar onde estou, fazendo o que devo fazer, até que ela retorne com toda a sua poderosa força, arrastando-me para outro lugar.
Chame de intuição ou chame de correnteza, sempre preste atenção quando ela estiver presente. Quando uma força maior estiver te empurrando em uma determinada direção, mesmo que você esteja morrendo de medo, vergonha ou incerteza, apenas feche os olhos e deixe-se levar. Confie nela. A princípio você pode se revoltar ao ver-se diante de uma situação complicada e difícil de entender. Você pode pensar em mil e um outros caminhos que deveria ter tomado para encontrar a felicidade, mas é exatamente aí que está a chave de toda a vida: a intuição não serve apenas para nos levar a lugares mágicos e cheios de arco-íris. Ela não tem a obrigação nenhuma de deixar-nos felizes e saltitantes para todo o sempre, porque uma existência não é construída somente à base de sorrisos e confortos. Ela existe para que você aprenda, cresça e conheça cada vez mais o reflexo que seus olhos veem todo dia ao mirarem um espelho. E sua missão é tirar o melhor resultado que conseguir de todas as experiências para onde a correnteza te leva.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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