09 – O Triste É Belo.

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Estava revisando meus textos ultimamente, separando o que eu posso reaproveitar, o que dá uma continuação, o que posso melhorar etc., e me dei conta de uma coisa: Eu só escrevo coisas tristes. É até possível achar alguma coisa aqui ou ali que tenha um pouco mais de comédia, um pouco mais de graça, mas 95% dos escritos terão um forte tom melancólico e uma carga emocional profunda. Ao notar este fato, sentei para escrever algo mais alegre, algo que quebrasse um pouco essa névoa acinzentada que sobrevoa por minhas letras fictícias. E o resultado foi mais um relato melancólico de algum personagem que está sofrendo ou passando por um momento difícil ou de reflexão profunda.
Eu não sou uma pessoa infeliz. Pelo menos não me considero assim no momento. Fora algumas ansiedades costumeiras e surtos na TPM, eu sou bem feliz sim. Então, por que não consigo escrever coisas felizes? Com esse pensamento na minha cabeça, fui descobrindo e refletindo um pouco mais sobre a minha própria personalidade. E não me refiro só à minha personalidade na escrita, mas de uma forma geral. E cheguei à seguinte conclusão: O triste é bonito. Pelo menos eu acho. Ao reparar que só escrevo sobre melancolias e abandonos, amores perdidos, mortes e coisas do tipo, também notei que essa parte de minha personalidade está presente em todos os aspectos. Meus filmes favoritos são tristes. Minhas músicas favoritas são tristes. Meus livros favoritos são tristes. Até o meu instrumento musical favorito – o piano – é um dos instrumentos que mais conseguem expressar melancolia, ao lado do violino.
Pensei e pensei (gosto de pensar!) muito sobre isso. Pode parecer bobo, pois seguramente existem coisas mais importantes a serem pensadas, ao invés de ficar refletindo sobre o tipo de humor de meus escritos, mas creio que pensar é a melhor forma de se chegar às respostas e eu sou uma pessoa que detesta perguntas e mistérios insolúveis. Para mim tudo precisa fazer sentido, precisa ter uma explicação lógica para a minha cabeça. Pensei até se eu não estaria triste sem saber, pode acontecer, quem sabe? Mas ainda não era a resposta que buscava. Até que a encontrei recentemente e por isso vim escrever esse texto. A tristeza é bonita. Muito bonita. Pelo menos aos meus olhos. Todas as artes que carregam uma melancolia na bagagem são os melhores tipos de arte, são as que entram para a história, são as que tocam o coração como nenhum outro tipo de arte menos densa o faz.
Não quero que isso seja entendido de forma errada. Vejam, eu não acho que todo mundo deva padecer eternamente para o mundo se tornar mais bonito. Não é isso a que me refiro. Mas tem algo na dor, na melancolia que prende, que é denso, que leva à uma reflexão. Acho que a dor é grande responsável pelas maiores respostas da vida. A dor geralmente precede aquela sensação de epifania que temos perante a certas questões e isso é bonito. É lindo, na verdade. Aquilo que falei sobre gostar da resolução de mistérios tem tudo a ver. A tristeza tira o véu que encobre grandes perguntas. E é esse descobrir que faz um caminho até a felicidade. E então aquela máxima se torna ainda mais exata: Tudo está ligado. Alegrias e tristezas, o masculino e o feminino, a luz a escuridão, ying e yang… São opostos que se conectam, que necessitam coexistir no mundo para que este possa evoluir e progredir. Um é o caminho do outro, um descobre o mistério que o outro causa. Como alguém não pode achar isso bonito?
Nas últimas semanas eu estava quebrando minha cabeça para escrever algo feliz, algo que não rimasse amor com dor, mas não obtive sucesso algum. Acho que faz parte de mim. Sempre fez. Desde pequena as primeiras histórias que escrevi são baseadas em sentimentos melancólicos. Mesmo que eu não me sinta assim. Talvez não faça sentido para muitas pessoas, mas para mim faz. E acho que tentar forçar uma mudança em relação a isso é como trair a mim mesma. É como tentar ser alguém que não sou. Que nem faço questão de ser.
Talvez chegue um dia em que eu mude, em que eu passe a escrever sobre coisas cor-de-rosa, sobre como o amor é lindo ou como a vida é bela. Mas não sei… Não sei se conseguirei largar a densidade dos meus escritos, do que acho verdadeiramente belo. A descoberta me é bela e dificilmente a verei de outra maneira.
Acho que a felicidade é o final de qualquer caminho. É a linha de chegada. O corredor precisa sofrer, suar, cair, levantar para chegar até à linha, até o seu objetivo, até à sua resposta. Essas são as melhores histórias. Isso é o bonito da vida. A trajetória. E a tristeza faz parte da trajetória das melhores pessoas que conheço.

 

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
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