Sobre Álbuns, Algos e Superações.

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Achei a caixa com fotografias, objetos e todas as coisas que fizeram parte da nossa história. Pensei instantaneamente em jogar tudo fora, queimar, livrar-me de qualquer resquício de um passado ilusório.
Não consegui.
Não naquele momento, não ali.
E ao invés de atirar tudo no lixo, o nosso velho álbum de fotos eu abri.
Imagens jogaram-se contra o meu rosto. Todos os sorrisos, todas as gargalhadas, as guerrinhas de almofadas às 3 da madrugada… Tudo compactado, apertado em um álbum de retratos.
Quando você se foi, eu desesperei. Perdi todo o controle e fui aquele tipo de mulher que sempre critiquei. Quem me vê hoje tão centrada, tão sana, tão risonha e agitada, mal pode imaginar que quase morri por um amor ferido. Que quase morri por um amor suicida.
É difícil de lembrar, difícil de aceitar, mas a verdade é que eu enlouqueci.
Olhando para trás, vendo um filme de sua partida em minha mente, eu não posso denominar de outra forma: foi loucura pura e obsessiva. Não sei se é possível pessoas normais ficarem momentaneamente loucas, esquizofrênicas, mas acho que foi exatamente o que aconteceu comigo. Ninguém nunca vai entender o que fui naquela época. Nem eu mesma algum dia vou entender o que fui, quem me tornei, quem ou o quê incorporei há cinco anos.
Não sei se há justificativas. Amor se mede, loucura se explica?
Seria um passado de perdas e derrotas constantes?
Seria essa sensação de desamparo que me acompanha injustamente desde o dia em que nasci?
Não sei, não sei explicar, não sei definir.
Eu fui apenas algo que você deixou para trás e por algum motivo eu acreditei nisso. Acreditei que eu era assim: só ‘algo’, uma coisa, um objeto que é largado, pois é matéria bruta, descartável. Não fui mulher, não fui filha, não fui gente; fui apenas algo, enquanto você era tudo. E esse foi meu desespero.
Não sei, não sei mesmo. Aqui me encontro, julgando minhas injustificáveis atitudes, criando um paradoxo ao explicar nessas linhas o fato do meu descontrole não ter explicação.
Eu apenas fui algo.
Sem nome, sem lugar, sem definição.
Apenas fui.
E, graças a Deus, não sou mais.

Continuo passando as folhas do álbum, vendo fotos, vendo momentos que foram congelados em variados centímetros de altura e largura. Momentos que significaram uma vida e cabem numa moldura retangular. Fomos gravados no tempo, sem permissão de apagar o que já foi vivido.
Você existiu e eu também. E durante alguns anos deixamos rastros, provas de que existimos juntos.
A felicidade já retornou ao meu ser. Já sou gente outra vez, com vontades, desejos, sonhos… Voltei a ser filha, a ser mulher, a ser amante. Sou alguém diferente, alguém que existe como gente, de matéria viva e pulsante.
Alguém que consegue existir com facilidade fora de sua presença.
Talvez esse tenha sido meu problema: tentei inserir-me em seu corpo por osmose e quis fazer parte de seu organismo para sempre. Mas aos seus olhos eu era apenas uma virose; algo que causa apenas um incômodo e passa.
Enquanto continuava a insistir, você queria apenas fugir dali. Vislumbrei o fim e fechei os olhos; recusei-me a partir.  Achava que podia morar dentro de você.
Mas é impossível, é inadmissível.
A física é mais exata que o amor; dois corpos não ocupam o mesmo espaço e é isso… Acabou!

A última folha do álbum desliza pelos dedos e um suspiro escapa dos meus lábios enquanto a contra-capa é fechada.
Sorrio.
Nada é melhor do que a sensação de algo superado.
Nada é melhor do que se ver inteira, após tanto tempo despedaçada. De sentir o controle de volta à suas mãos, de volta ao coração.
Não jogo o álbum fora. Ele precisa ficar. Precisa ficar e me lembrar, em todos os momentos de queda, de loucura, de esquizofrenia, que eu sempre posso superar.
O que era meu ponto fraco, agora virou meu poder. Se agora aqui estou, nada mais pode me deter.
O mundo girou e a loucura me largou.
Trocamos de lugar e isso é quase impossível de acreditar.
Sou forte, sou única, sou gente.
Sou filha, sou mulher, sou amante.
E você é apenas algo dentro de um álbum de fotos em minha estante.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
Cuera

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responses to “Sobre Álbuns, Algos e Superações.” 6

  1. Tive alguns flashback quando estava lendo. É totalmente Minha vida, minha história! Que felizmente também já foi superada, só ficaram as lembrança…

  2. Caral%¨&¨%$##!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Meu Deus não tive como evitar as lágrimas saíram, pois eu já me permeti acreditar que eu era apenas algo e esse texto me fez voltar lá, naquele tempo, mas o final fez abrir um sorriso no meu rosto, porque me fez lembrar o quanto forte eu fui e sim o albúm deve permanecer pra lembrar, pra não nos deixar cair de novo!!! Me escreveu totaaal!!!! A-meiii!! <3

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