Cidade do Vento.

cidade do vento

“Você não faz ideia de quanto tempo te esperei”

Eu tive um sonho. O mais belo de todos. O mais estranho de todos. Mas principalmente, o mais verdadeiro de todos.
Andava por uma longa estrada, sem caminho, seu rumo, parecia que eu estava em busca de algo, ainda que não soubesse certamente o quê.
Uma leve brisa soprava meus cabelos, empurrando-os para frente. Era como se o vento estivesse me dizendo para continuar nos momentos em que eu tinha vontade de desistir. Estava sendo empurrado, guiado para algum lugar. Para alguém.
E então, escutei uma voz.
Um sussurro.
Era como se o vento estivesse falando comigo.
Era como se o vento estivesse me chamando.
Assim que abri os olhos ao despertar, decidir seguir esse vento. Há sonhos que não são simplesmente sonhos e sim algum aviso para mudarmos nossa forma de ser ou de viver. E estava na hora de pegar a estrada. A estrada da qual havia sonhado. E deixar que o vento me guiasse.
Com uma mochila nas costas e sem esquecer das pessoas que estava deixando para trás, dei o primeiro passo para sair de casa. Estava em busca de algum maravilhoso mundo novo ou de alguma nova canção para minha vida tocar.
A verdade é que eu estava em busca da vida. E só poderia encontrá-la se fosse atrás do movimento.
Um convite bate à nossa porta todos os dias. Um convite invisível, talvez também incompreensível, mas que está ali. Porém as pessoas não vêem, viram a cara, têm medo. Elas não querem sair da rotina. Porque o desconhecido é um terreno bastante perigoso.
Eu atendi ao convite da vida. E estava à procura da felicidade.
Mas como tudo na vida, a felicidade é algo desconhecido. O ser humano luta e às vezes pode matar por ela, mas quando a alcançamos verdadeiramente, parece que ainda falta algo. Oh, que bicho egoísta e mesquinho é o ser humano! Sempre à procura de algo mais… Mesmo quando ele já encontrou tudo.
Durante o caminho encontrei muitas pedras. Enfrentei muitas tempestades, passei fome e sede. Lutei contra dragões perigosos e andei sobre o mar. Saltei até segurar uma nuvem em minhas mãos e, ao prová-la, vi que era mesmo feita de algodão doce.
O mundo pode ser cheio de magia se passarmos a vê-lo com outros olhos. Se o enxergarmos com os olhos de nossa alma, poderemos ver aquilo que o ser humano, com sua visão superficial tapada pela grande nuvem negra e suja da maldade, não consegue ver com sua inteligência mal aplicada.
Cumprimentei fadas, lutei ao lado dos elfos e ajudei aos duendes reestruturarem uma floresta destruída pelo fogo da ganância e do poder.
Andei mais por vários dias. Em uma noite de exaustão e desânimo, me deitei sob as estrelas, pensando que tudo tinha sido em vão. Por que eu, aquele típico ser humano que está sempre querendo mais do que pode ter, ainda não estava satisfeito. Por um momento a razão falou mais alto e pensei que talvez fosse uma completa loucura largar a minha vida para buscar algo que eu nem mesmo sabia o que podia ser. E entre pensamentos abatidos e desesperançosos, adormeci.
Sonhei com anjos. As nuvens – que eram mesmo de algodão doce – estavam repletas deles, vestidos com suas túnicas brancas e abençoados com as auréolas em suas cabeças. Todos me observavam, enquanto eu seguia deitado na relva, encarando todo aquele público que me olhava. De repente o menor dos anjos saiu detrás das nuvens, com algo em sua mão. Era uma criança, que descia dos céus para me dar um presente.
Eu não conseguia me mover. Estava entorpecido por toda aquela áurea angelical. A menina loira e de cabelos cacheados colocou algo sobre minha mão. Mas era invisível.
E ela meu deu um beijo e me disse : “Siga a rosa branca”.
E então partiu.
E eu acordei.
O vento soprou no momento em que abri meus olhos. O vento outra vez. Ele me passava as mensagens, ele me impulsionava a continuar. Eu só tinha que seguir meu caminho, pois estava me tornando igual aos outros seres humanos: alguém com medo do desconhecido e que desistia por não encontrar o caminho em linha reta e fácil, apenas o sinuoso e complicado.
Peguei novamente minha mochila e reconstruí os sonhos e as esperanças. Se eu já havia percorrido tanto, deveria ter algum propósito. Ninguém recebe tantos sinais se não for para segui-los. E eu seguiria o meu destino.
Parei de contar os dias, as horas, os minutos, pois tudo isso atrasa a vida de alguém. Deixei o sopro do vento me conduzir para o caminho certo, acompanhei seu rumo e prossegui sem medo. O que interrompe a estrada de alguém não são as tempestades ferozes ou o sol escaldante. É simplesmente o medo. E eu fiz questão de mantê-lo bem longe de mim.
Uma canção de amor sussurrava em minha mente quando pisei no primeiro paralelepípedo. Só então notei que a estrada arenosa havia acabado e que havia chegado a algum lugar. Levantei meu rosto e pude ver uma cidade à minha frente, com um arco-íris circundando-a devido à leve chuva que havia caído junto com o sol que escalava o azul do céu aos poucos.

“Seja bem-vindo à Cidade do Vento”  

A inscrição na placa de madeira fixa na entrada fez meu coração saltar.
Eu tinha seguido o vento. E ele havia me trazido até aqui.
Como mágica, o vento começou a soprar em minhas costas e eu avistei na primeira casa, uma mulher sentada em um pequeno banco. Meus olhos não conseguiram desviar-se para outro lugar e ela me avistou também. Mesmo de longe, pude ver um lindo sorriso inundar o seu belo rosto. Ela veio caminhando até a mim, com seus cabelos vermelhos balançando no ar e, quando se aproximou, vi que tinha algo em sua mão: uma rosa branca.
Naquele momento meu peito encheu-se de um ar mais puro, de uma felicidade indescritível.
Nunca a tinha visto em minha vida. Mas a conhecia de muito antes.

— Estás aqui. Finalmente. – disse com a voz baixinha, quase como num sussurro e sorriu em seguida.
— Estava esperando por mim? – indaguei, completamente hipnotizado por seu sorriso.
— Você não faz ideia de quanto tempo te esperei.
— E você não faz ideia do que eu fiz para te achar.

Então ela segurou minha mão. Mesmo não tendo se apresentado, eu a conhecia. Porque não é necessário nomes para identificar alguém. Quando essa pessoa está dentro do seu coração, podem se passar vidas ou eras, ela nunca perderá a verdadeira identidade para àquela que ama.
E sentindo seus dedos finos e calorosos entrelaçados com os meus, me conduzindo para dentro da Cidade do Vento, pude perceber, com um enorme alívio e conforto no peito, que havia conseguido alcançar meu objetivo.
Tinha encontrado o meu lugar.
Finalmente.
Eu estava em casa.

 

Fim.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Quer ser escritora e viver de fazer Literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 16 páginas escritas)
Cuera

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responses to “Cidade do Vento.” 3

  1. Eu amo essa história. Você postou uma vez na comunidade, lembro bem como amei ela logo de início. Estava em uma época que era difícil continuar em frente e é sobre isso que a história fala. Não sei se você fez algumas modificações nela, mas continua linda.

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