#16 – Quando O Vento Sopra (E Ele Sempre Vem Soprar)

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Sempre que podia, Vanessa escondia toda a poeira por debaixo do tapete.
Não aquela que fica no canto da sala, o pozinho branco que insiste em aparecer diariamente nos lugares mais cerrados e inimagináveis. Mas a poeira que se escondia atrás de seu peito quando suas emoções ficavam fora de controle.
Vanessa não era uma pessoa comum. Algo diferente acontecia com ela: seus sentimentos não eram apenas aquela sensação incômoda que a maioria das pessoas sente na região do estômago ou do coração. Os sentimentos de Vanessa viravam poeira concreta, tão concreta que era possível pegar nas mãos e ver escorrer entre os dedos, como um punhado de areia. Era um transtorno para a jovem garota ter de limpar todos os dias a sujeira causada pela sensibilidade de seu corpo. Odiava ver aquilo, sentir-se coberta de pó o tempo inteiro era irritante. Por isso, cada vez que sua sensibilidade era afetada e um monte de poeira caía sobre o chão, Vanessa pegava a vassoura e escondia tudo debaixo do tapete o mais rápido possível.
Havia uma outra solução, dizia a curandeira (ou feiticeira, como dizia as más línguas), de seu vilarejo. Em um dia do passado, quando foi procurar secretamente ajuda para seu problema, a velha curandeira disse-lhe que uma outra opção seria encarar de frente sua sujeira, revirar todo o pó negro e asqueroso que espalhava pelo chão. Compreender e a aceitar o que seu corpo produzia era a melhor maneira para afinar aquela poeira. Ela desaparecia no minuto em que Vanessa fizesse isso. Mas Vanessa não acreditou, apressou-se a negar tal solução, isso era impossível, disse enquanto abria a porta da pequena casa e deixava a curandeira falando sozinha.
Retornou à casa inconformada, revoltada por ter nascido sob tal condição. Era uma amaldiçoada, com certeza alguém lá em cima a detestava para criá-la desse jeito. Ou era um karma muito grande a se pagar, se é que essa baboseira de vidas passadas realmente existia. Toda a raiva de si mesmo e do mundo produziu mais e mais poeira, cada vez mais suja, cada vez mais espessa. E lá ia pobre Vanessa, pegar uma vassoura para esconder tudo debaixo do tapete.
Vanessa foi ficado mais velha e sua casa não tinha mais tapetes para esconder tanta sujeira. Continuava olhando o mundo pela sua janela, imaginando uma vida perfeita, imaginando um destino diferente, desses que as pessoas de sorte possuem, enquanto atrás de si a poeira só ia aumentando e ganhando o formato de pequenas dunas, que as centenas de tapetes comprados já não conseguiam mais esconder.
Foi na primeira semana de outono que aconteceu. Após um dia de muito calor, a cidade foi invadida por uma ventania arrebatadora. O vento foi engolindo tudo o que aparecia pela frente, janelas, portas, telhados e até mesmo alguns animais de pequeno porte.
Vanessa tentou se esconder, mas não tinha espaço. A casa estava completa de poeira, a sua poeira que acumulou debaixo de tapetes, da cama, atrás do sofá e dentro do armário. Quando o vento entrou, não teve piedade de sua condição. Descobriu toda a poeira que Vanessa acumulou durante a vida e arrastou a garota para dentro do que havia construído.
Vanessa afogou-se em seu próprio mar.

*

Quando as pessoas saíram de suas casas para ver os estragos causados pelo vento, perceberam uma montanha de terra negra no lugar que antes era a casa de Vanessa. Olhos perdidos buscavam em outros olhos alguma explicação para tal fenômeno, mas ninguém parecia achar uma resposta para o sumiço da moça e o aparecimento daquele monte de terra escura e pesada. Percebendo que havia bastante trabalho a ser feito para reconstruir o vilarejo, as pessoas se afastaram aos poucos, comentando ainda com perplexidade o acontecido.
Apenas um rosto triste permaneceu.
Com lágrimas nos olhos, a velha curandeira ajoelhou-se e fez o sinal da cruz para o monte de terra à sua frente. Fez uma rápida e sincera prece, dedicou um último olhar à poeira da menina e foi embora desejando que ela tivesse um pouco mais de coragem na próxima vida.

Cuera

Cuera

Carioca de nascimento e mineira de alma. Coleciona um pouco de tudo: séries, livros, filmes, cadernos, memórias, objetos inúteis e até horas infinitas de procrastinação (provavelmente estará no programa “Acumuladores” no futuro). Se considera escritora e quer viver de fazer literatura (isso se o livro que está escrevendo sair algum dia das 18 páginas escritas)
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